DESIGN E RESPONSABILIDADE SOCIAL


POR VERA DAMAZIO E CRISTINE NOGUEIRA

A cada dia fica mais difícil desviar os olhos dos acontecimentos trágicos em nossa cidade, nosso país e em nosso planeta. Estamos acuados, atônitos, perdidos, respirando fundo a cada manhã a fim de absorvermos a parcela mínima necessária de coragem para irmos à luta por mais um dia. Vivemos um momento de concentração de riscos, de engarrafamento de problemas, de expressão aberta de intolerâncias, não em áreas isoladas e distantes, mas nas ruas das cidades, entre cidadãos, nos transportes coletivos, nas casas, escolas, entre mamadeiras, batons, bengalas e gravatas.

Mas alarmismos não ajudam nada. Não podemos temer abrir portas e páginas. É preciso reagir, usar a criatividade, encontrar soluções buscando olhar os problemas sob novos ângulos.

O Design, por exemplo, é uma atividade instrumentada para materializar soluções para problemas de toda ordem. No entanto, vem sendo recorrentemente associada à tarefa de criar objetos originais e extravagantes para uma elite de gosto elaborado. O Design exerce esse papel sim, e além de requinte e novidades para o público, vêm contribuindo com a produção de empregos e divisas para o país.

O que poucos sabem é que o Design é uma atividade de enorme alcance social que dispõe de instrumental para atender necessidades diversas da sociedade, das mais básicas às mais requintadas, das mais mecânicas às mais transcendentais. No entanto, por costume ou mera falta de informação, o designer vem sendo colocado à margem de muitas situações das quais deveria participar.

Um exemplo de fácil localização no cenário atual nos leva às eleições norte-americanas e à cédula de votação que, após um longo entrevero, levou George W. Bush à presidência dos Estados Unidos. Ela apresentava um defeito de diagramação que confundia o eleitor entre as lógicas horizontal e vertical de leitura. Embora simplória à primeira vista, esta é uma questão básica na formação de um designer. Será que se a cédula de votação tivesse sido bem projetada, Bush teria sido eleito” E se Bush não tivesse sido eleito” Teria sido a política externa americana conduzida com mais tolerância e habilidade-

Textos demais e ilustração de menos

Outro exemplo nos traz de volta ao Rio de Janeiro, à epidemia de dengue e à primeira campanha do Dia D, arquitetada para engajar a população carioca na luta contra o mosquito. Um dia antes de seu lançamento, a Secretaria de Saúde reconheceu que os impressos criados traziam texto demais e ilustração de menos, entre outros equívocos projetuais. Mais adiante, constatou-se que a data do evento, ou o Dia D propriamente dito, não constava dos impressos.

Ainda nas ruas do Rio de Janeiro, muitos dos ônibus coletivos não parecem ter sido projetados para cidadãos que precisam se deslocar de um ponto a outro com conforto e segurança, mas para o passageiro desonesto. Tendo como prioridade o pagamento da passagem, um sistema composto por estreitos corredores, barras e roletas encurralam os passageiros e os conduzem ao trocador. E azar deles se precisarem sair do ônibus em uma situação de emergência.

Não são poucos os exemplos de ambientes e produtos que parecem ter sido projetados com base no sentimento de desconfiança e desatenção ao cidadão: avisos que nossas ações estão sendo controladas por câmeras espalham-se por lojas, elevadores e corredores de prédios com o cínico texto “Sorria! Você está sendo filmado”; portas giratórias empurram os menos rápidos e prendem quem leva consigo as chaves de casa e outros objetos de metal inofensivos; as calçadas são abruptamente interrompidas nas entradas dos postos de gasolina dando preferência aos carros e não aos pedestres; balcões de atendimento inclinados impedem os usuários de apoiar seus pertences; caixas automáticos constrangem os menos afeitos às novas tecnologias; aparelhos e monitores comandados a partir de pequenos números, letras ou sinais tornam-se inoperantes para quem não tem uma visão perfeita, dentre tantos outros exemplos que atingem principalmente os que mais dependem de produtos eficientes e amigáveis como os idosos, os portadores de deficiência física, os iletrados e as crianças.

Caveira com faca cravada no crânio

Como se sentem e reagem as pessoas diante de sistemas de objetos e informações que não os respeitam, ou que partem do princípio que -todos querem mais é se dar bem” E como se sentiriam e reagiriam a um entorno construído com foco em seu bem estar’

Voltemos ao Rio de Janeiro, para ao trágico episódio do seqüestro do ônibus 174 e às mortes protagonizadas por integrantes do Batalhão de Operações Especiais: O que se deve esperar de uma corporação identificada pela imagem de uma caveira com uma faca cravada no crânio à frente de duas armas” Como deve se comportar um indivíduo que ‘veste” tal imagem”

O Design é um dos principais foros para o planejamento e desenvolvimento dos objetos e imagens que constituem o cenário contemporâneo. É um processo de transformação de idéias em formas, de coisas invisíveis em coisas visíveis. O Design pode incorporar códigos éticos e morais, pode informar condutas socialmente responsáveis e ajudar a transformar situações existentes em outras mais desejáveis.

Em parceria com educadores, publicitários, nutricionistas, médicos, assistentes sociais, sanitaristas, psicólogos, cientistas sociais, economistas, engenheiros e demais profissionais em ação, o Design pode, na pior das hipóteses, apresentar novos pontos de vista e ferramentas para a busca de soluções para nossa cidade, nosso país e nosso planeta e para a construção de uma sociedade mais virtuosa e plural.

FONTE: VERSO BRASIL EDITORA

Foto: Mariana Olcese / Modelo: Luciane Valença como “Palhaça”/ Imagem trabalhada no Photoshop / Local: Casa de Amparo Lar Sênior

Uma resposta para “DESIGN E RESPONSABILIDADE SOCIAL

  1. Texto excelente e muito atual, apesar de escrito há tantos anos! Sei que as autoras são professoras da PUC. Mas onde o texto foi publicado originalmente? Obrigada

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