Sem imagens


 

Antigamente escutava os mais velhos dizendo que a palavra “amor” estava banalizada, agora é a vez da palavra “arte”, tudo é arte?

O fato é, que nosso país é um celeiro incrível de artistas em variadas vertentes, mas poucos são aqueles que possuem “estrela”, ou seria melhor dizer: quem indica?

Transcrevo hoje a coluna do Artur Xexéo, sem imagens para ilustrar, pq as palavras já dizem tudo e tudo mesmo. Porque finalmente alguém disse e teve voz para isso!

E viva Arthur Bispo do Rosário, por salvar a Bienal!

 

“A certa altura da 30ª. Bienal de São Paulo, o visitante encontra um cartaz pregado por um artista numa divisória entre duas salas de exposição. Bem, talvez não seja um cartaz. Talvez não seja a criação de um artista. Talvez seja a opinião de um espectador que a colou ali, e deixaram ficar. Talvez… Maior reunião, no Brasil, de artífices da arte contemporânea do mundo inteiro _ nesta edição, são 111 que se espalham por 25 mil metros quadrados _ o cartaz tem dizeres surpreendentes: “A arte deve ter o direito de se arriscar a ser ruim.”

Não muito longe dali, está exposta a obra de Arthur Bispo do Rosário, o que contradiz o cartaz. Mas em volta de Bispo, o que se vê parece constatar que o novo curador da mais importante exposição de artes plásticas realizada no Brasil, o venezuelano Luis Pérez-Oramas, investiu no risco reivindicado pelo cartaz.

“A iminência das poéticas” foi o nome que recebeu a atual Bienal. Mas é bom que o espectador não se apegue a isso ao tentar encontrar algo em comum entre o que está exposto. O curador e os críticos vêm celebrando o fato de esta ser uma bienal mais… “arejada”. Há muito em exposição, mas há paredes. Nada a ver com a Bienal do vazio, de dois anos atrás, em que um andar inteiro ficou sem obras. Há espaço para circular, há espaço para os artistas, mas há muito espaço também sem nada. Talvez… você não sai de uma exibição de arte contemporânea sem ficar cheio de “talvezes”… Talvez isso permita mais tempo para a reflexão, talvez isso dê mais tempo de se absorver o trabalho de cada artista, mas, quando se chega ao espaço de Bispo e reencontra-se o amontoado característico de seus trabalhos, a gente percebe que estava saturado de tanto arejamento. Uma Bienal que se destaca pela forma com que expões suas obras tem alguma coisa errada.

Bispo é de longe o artista mais interessante da megamostra, o que não chega a ser surpreendente. Vale a pena conhecer também o trabalho do artista alemão Franz Erhard Walther. Com seus 73 anos, talvez _ olha outro talvez aí _ ele seja o artista mais velho do grupo. Walther surpreendeu o mundo nos anos 60 do século passado com uma inquietação aparentemente comum aos artistas de sua geração. De repente, a escultura estática não o interessava mais, e ele passou a “construir” roupas, a criar esculturas que precisavam ser “vestidas” pelo espectador para existir. É isso mesmo, Hélio Oiticica não estava só. Mas as 58 peças do que o artista chamou de “1. Werksatz” (“1º. Conjunto de trabalhos”) pouco têm a ver com os Parangolés. O espectador pode usá-las como quiser. Na Bienal, têm sido vestidas em duplas (veja o vídeo acima). Duas pessoas se “prendem” com a “roupa”, passando-a pelas cinturas. De material elástico, ela se estica quando os corpos se afastam e fica frouxa quando se aproximam.

Mas é a obra de Bispo que parece aproximar o que ocupa o Pavilhão da Bienal. É impressionante a quantidade de convidados que transformaram o colecionismo, o inventário em arte. Quando se veem as “coleções” de Bispo, por alguma razão, não se dúvida de que se está diante de um artista. Já nas outras salas… é impossível não se perguntar o que diferencia um artista de um simples acumulador compulsivo.

São muitos os exemplos de artistas que juntaram 40 garrafas de água mineral ou 40 pares de meia, ou 40 tampinhas de cerveja e apresentam essas coleções como obra. É duvidoso. O artista venezuelano Eduardo Gil, de 29 anos, chamou a atenção logo que a Bienal foi aberta por um trabalho batizado de “Cinejornal do ditador” ou “Hematoma”. Nele, Gil juntou 270 fotos de ditadores de todo o planeta baixadas da internet, colou-as sobre 270 motores de fornos de microondas e aplicou sobre elas cores extraídas de imagens de hematomas. As fotos giram sem parar formando um caleidoscópio que perde sua força quando se descobre uma imagem de João Goulart entre ditadores asiáticos, africanos e latino-americanos. Mas o trabalho mais atraente de Gil é uma coleção. Chama-se “Leituras urinárias” e exibe pendurados 18 colchões gastos de crianças. Dentro de cada um há uma gravação (instalações sonoras são outra mania desta temporada) que conta a história daquele colchão ou da criança que o usava. Num deles, uma mãe se refere à força do cheiro de vômito que ele emana. Escatológico e provocativo. Mas arte?

Quando Franz Erhard Walther começou a exibir suas “Werksatzen”, muitos colegas o criticaram dizendo que ele estava deixando de ser um artista para se transformar em alfaiate. Cinquenta anos depois, seu trabalho se transformou em peça de museu. Acontecerá o mesmo com os acumuladores de hoje?”

Artur Xéxeo – O Globo 19/09/2012

 

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